Sempre achei interessantes as exposições e bienais. Qualquer forma de representação artística merece ser mostrada, analisada, estudada. Mas nunca quis participar de uma dessas exposições de arquitetura, que ao meu ver, acabaram tomando um rumo mais comercial do que realmente uma apresentação de soluções para a vida de quem vai vivenciar o espaço projetado. Sempre achei que a exposição por si só não valia de nada, tinha que ter um significado. Esse ano, a intenção da Bienal de Arquitetura de Veneza é muito boa, a de resgatar a relação cliente x arquiteto. Acho que acertaram em cheio. Tenho tentado seguir sempre essa linha no meu trabalho e, além de reconhecimento, tenho conquistado grandes amigos.
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Há dois anos estive em Veneza e tive que tomar uma decisão cruel para um Arquiteto. Tive que fazer a "escolha de sofia" entre conhecer a cidade e visitar a Bienal de Arquitetura. Como só tinha dois dias, optei, com dor no coração, pela aula de arquitetura a céu aberto.
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Não me arrependo. Me apaixonei tanto por essa cidade e ela exerce algo tão mágico sobre mim que não passo um dia sem fechar os olhos e lembrar de suas pontes sobre o verde Mar Adriático. Tenho certeza de que voltarei mais de uma vez. Quem sabe não pego outra Bienal?
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O texto abaixo foi retirado do site do Terra e destaquei as partes que considerei mais interessantes.
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Sexta, 12 de setembro de 2008, 11h29
Bienal de Veneza propõe resgate do "lar doce lar"
Guilherme Aquino
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A Bienal de Arquitetura de Veneza, a principal do mundo, abre as portas ao público tentando reacender um diálogo que parece ter se perdido com o passar do tempo: o do criador de casas com o que mora e vive nelas.
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Entre os dias 14 de setembro e 23 de novembro, a mostra Out There: Architecture Beyond Buildings (algo como Lá Fora: A Arquitetura para Além dos Edifícios, em tradução livre) quer resgatar os valores da arquitetura perdidos em "túmulos de cimento" - ou seja, em edifícios modernos que sufocam a realização de chegar em casa e "se sentir" em casa, e não em num simples dormitório.
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Em 56 pavilhões estrangeiros, cem arquitetos convidados - entre eles, Frank O. Ghery, Zaha Hadid, An Te Liu, Herzog & Mede Meuron - e 300 profissionais do setor, trouxeram para a mostra o que viram e ouviram de seus clientes.
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A exposição pretende ouvir quem vive no microcosmo criado pelo arquiteto e provocar maior interação entre o arquiteto e a população. O diretor da Bienal, o holandês Aaron Betsky, quis exibir um olhar de dentro para fora, avaliar o ponto de vista de quem vive os pontos positivos e os negativos da arquitetura na própria pele.
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Segundo ele, o grande problema é a inércia da arquitetura. "Ela não representa apenas 'o construir', mas sim o ir mais além. Os prédios nada mais são do que uma realidade insuficiente, se transformaram em 'túmulos de arquitetura'. Eles são grandes e caros e dificilmente se adaptam as novas exigências da vida moderna", comentou, durante a apresentação da Bienal.
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O Brasil colheu ao pé da letra a proposta da Bienal. O curador do pavilhão brasileiro, o arquiteto Roberto Loeb, saiu a campo para ouvir os relatos de 86 pessoas das mais diferentes idades, classes sociais e profissões. E transformou esses depoimentos em painéis fotográficos e as paredes em grandes murais.
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Deu a palavra desde a um anônimo sem-teto que vive embaixo de um viaduto em São Paulo até uma famosa atriz, que reclama do quarto orientado para o oeste e que se transforma em um "forno" ao longo da tarde.
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Dentro do pavilhão foram criadas duas grandes salas de leitura, como se fossem a biblioteca de uma casa. "Começamos pelas memórias de cada um, das coisas mais importantes das vidas até as propostas que alguns fazem para as ruas, as praças, para o mundo, para a infra-estrutura de hoje", explicou Roberto Loeb.
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"Encontramos uma babá na zona sul do Rio do Janeiro que propôs soluções viárias para a cidade, através de viadutos e pistas. Ela propõe ainda a criação de centros de educação física onde vive, em Caxias, nos quais as crianças aprenderiam lutas marciais e assim ganhariam auto-estima que ajudaria no respeito a si próprio e aos outros", comentou o arquiteto.
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Outro exemplo é foto de uma casa de um sem-teto, decorada com calotas de ônibus, plástico amarelo e outros materiais encontrados na rua, apresentada no principal muro do pavilhão. "É um palácio feito com restos. Com amor, com sensibilidade se pode fazer muito com pouco. Ele reciclou tapetes e móveis velhos e fez um canto que é um encanto", resume Roberto Loeb. "Achei que era o momento de trazer para a Bienal o 'não-arquiteto', a voz de pessoas que de uma forma ou de outra usam ou não o trabalho do arquiteto".
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De volta às origens
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A reciclagem está na ordem do dia nesta Bienal. Por todo o chamado Giardini, onde estão os pavilhões das nações participantes, e em algumas áreas do Arsenale, onde foi montada uma exposição chamada Installations, se vêem pequenos viadutos feitos com madeira e galões de plástico.
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Nas mãos de arquitetos estes materiais destinados ao lixo ressuscitam e ganham uma nova função e forma cada vez mais arrojadas e inovadoras.
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Projetos de revitalização de espaços urbanos "mortos", com os parapeitos de viadutos, tetos e paredes de prédios, prevêem uma verdadeira revolução verde. A implantação de pequenos jardins suspensos serve para devolver ao habitante da cidade o contato com a natureza.
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Mais do que apresentar soluções milagrosas para a questão da habitação no mundo, a Bienal propõe interrogações através de instalações sobre a necessidade do ser humano valorizar, viver e possuir o espaço à sua disposição.
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O conhecido arquiteto Frank O. Gehry, que criou, entre outros projetos, o do Museu Guggeneheim em Bilbao, trouxe uma maquete gigante de um hotel em construção em Moscou.
Em tempo real, e diante do público, um grupo de artesãos de Veneza completa a obra, cobrindo a estrutura de madeira com argila, segundo orientação do arquiteto. "Enquanto muitos buscam novas formas com tecnologia de ponta, Frank O. Gehry volta às origens e mantém as raízes nos elementos naturais", afirmou um dos artesãos.